A experiência religiosa do século XX diz muito sobre a atualidade no Brasil.

 Iniciei a minha trajetória vocacional aos 9 anos de idade como catequizando numa paróquia católica romana (que prefiro não revelar), aos 15, estava como coroinha, onde observei alguns erros na Igreja e senti a necessidade para defender os injustiçados. Mas com a chegada de um novo padre, já de idade avançada e com ele um ex-seminarista, autoritário, suspeito, tornou-se sacristão e era o organista nas missas, projetou-se em torno do grupo de cantores e dos coroinhas. Suas táticas manipuladoras foram abençoadas pelo vigário, chegando a cometer barbáries ao forçar trabalhos de limpeza entre menores de idade, certamente, hoje tanto o padre, como o ex-seminarista teria sidos processados pelo abuso que cometiam. Foi o meu primeiro problema com a Igreja.

Na minha primeira celebração da Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa no Recife-PE diante do grande amigo e irmão Arcebispo Gregório Magno, cheguei a pensar no fato do tempo em que fui um coroinha considerado rebelde, porque defendi ardentemente os meus companheiros de serem explorados por um ex-seminarista esquizofrênico e que descontava a sua raiva em mim e neles. A primeira vista possa até soar como fofoca, mas já havia um sentido de Justiça dentro do meu coração. 
A raiva desse rapaz foi muito longe e atingiu outras pessoas ao ponto de toda a comunidade solicitar o seu afastamento da paróquia por medidas disciplinares. 
Como reação lógica de quem aspira o poder se uniu as pessoas que não desejavam mudanças estruturais na Paróquia e perseguiu padres e um sacerdote que acabou deixando o sacerdócio para se casar. Até com a moça, criaram uma situação de violência. Ainda bem, que nada aconteceu!

Até hoje, a história dos grandes conflitos eclesiais surgem de um pequeno lugar, inclusive em cidade dos interior da Paraiba, considerada uma região metropolitana devido o seu histórico comercial e industrial. 
É nessa época que chaga a Campina Grande-PB, Dom Luis Gonsaga Fernandes, o denominado pai das Ceb's, que torna o modelo principal diocesano, a formação das pequenas comunidades inseridas como diretriz primordial.
Os animadores de comunidades eram ativos nas paróquias, a sua liderança levou a Igreja priorizar os leigos das Ceb's e as reuniões de formação, ação e espiritualidade, todas eram balizadas pelo modelo libertador abraçado por seu bispo diocesano. Era um momento pujante na cidade, uma era de mobilizações políticas, entre a juventude, encontramos o Movimento Estudantil com as suas crescentes manifestações até que nos anos 90, assistimos o Movimento pelo Impeachment do Presidente Collor, o fortalecimento das lutas sindicais, assentamentos do Sem Terra e do avanço do movimento comunitário. Era uma igreja que ascendia a luta em seu posicionamento profético!
A era de Dom Luis, foi ficando humilde, dando lugar a Renovação Carismática, que ascendera na atuação de uma comunidade que reune suas forças a desenvolver o setor conservador em Campina Grande-PB, organizando ministérios avulsos sob o seu controle, conquistando padres e freiras, a exemplo de um que se tornou cantor e veio a se candidatar a vereador, mas a população não caiu nessa e desaprovaram o projeto carismático em eleger o seu candidato.
Verifiquei que vivemos numa época de utopias por um mundo melhor, justo e fraterno, eramos sonhadores e envolvidos com as lutas sociais; nossas reivindicações atendiam a educação gratuita e  de qualidade, uma escola democrática e popular, pelo fim do vestibular e o livre acesso as universidades para atender os interesses da classe trabalhadora e nunca permitir que o mercado determine a educação nacional.
Nas universidades públicas lutamos por cotas aos estudantes das escolas públicas, negros, indígenas... algumas destas reivindicações, frutos das ações políticas da época e vivenciadas na atualidade. Além das lutas internas, restaurante gratuito, bolsas, residências universitárias, nos centros e diretórios acadêmicos, os chamados CA's e DCE's, foram para mim, verdadeiras escolas de formação da ação política.
Reacendi nas mesmas lutas estudantis, mas rejeitei ser o seu lider maior pelo DCE de uma universidade pública, mesmo a pedidos da maioria, como também o fiz ao ser escolhido por um partido de esquerda radical a ser pré-candidato a prefeito desta cidade, mas em 2006, acabei candidato pelo PSOL a deputado federal, uma campanha que elevaram todas as minhas utopias, desde o fim da corrupção, o passe livre, a revogação das reformas neoliberais que atingiram os trabalhadores brasileiros... Esse sonhos nunca sairam da minha cabeça, devo-lhe dizer, permanecerei sonhando com um mundo justo e livre.
A experiência do passado me conduziram ao que eu sou hoje, tornando-me qualificado, realista e defensor dos direitos humanos, mas sou sem dúvida uma pessoa com um vasto conhecimento nas ciências humanas e sociais, um mero professor de filosofia... mas feliz!
Apesar de ter tudo de um sonhador do Socialismo Científico, confesso que estudo o marxismo até hoje, pois isso nunca me senti um marxista, propriamente dito, apenas sou consciente do papel social e do mundo atual que nos cerca. Uma sociedade que beira a barbarie, um modelo econômico devastador!
Quando vejo o mundo atual e as suas mazelas sociais e econômicas me sinto como estivesse no século XX, querendo transformar a sociedade atual, percebi que esse chamado não veio de uma leitura crítica de Marx, mas sim do livro dos profetas e do Evangelho de Jesus. Foi a formação teológica que me tornou em um homem socialista, perdoe-me a todos os marxistas de plantão!


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